sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Cenas de crimes são violadas



Um problema apontado como freqüente atormenta e atrapalha peritos do Instituto Técnico Científico de Polícia (Itep) e investigadores da Polícia Civil: a falta de preservação dos locais de crime, principalmente de homicídios. Para o delegado Roberto Andrade, da equipe da Delegacia Especializada de Homicídios (Dehom), isso chega a prejudicar todo o curso da investigação, pois "a cena do crime fala e precisamos saber ler o que está nela. Se algo é mudado, fica difícil de entender o que aconteceu". O perito criminal Paulo Roberto do Vale, do Itep, considera que 90% das perícias feitas, numa média de seis por dia, acabam sofrendo algum prejuízo por falhas no isolamento feito pelos policiais ou por causa da curiosidade da população em invadir as cenas.
Paulo Roberto é enfático ao afirmar: "cena de crime é um trabalho para o perito criminal. É fundamental que haja o isolamento da área em um espaço suficiente e que tudo esteja exatamente nos lugares onde foram vistos pela primeira vez". Porém, segundo o perito, isso é algo que não costuma acontecer. "O isolamento, muitas vezes, não é feito, ou é de forma inadequada. Freqüentemente é feito numa área muito restrita, em cima do corpo, praticamente". Ele reclama ainda que há casos em que as famílias das vítimas tocam nos objetos, prejudicando a coleta de impressões digitais, ou mesmo os policiais pegam nos cartuchos de balas encontradas nas cenas.

Sem capacitação
Para o perito, o problema está na falta de treinamento dos policiais que chegam primeiro aos locais de crime. "Às vezes, falta até mesmo a fita de isolamento. Outro ponto é a população, que não tem consciência que o local tem de ser isolado e preservado". Segundo Paulo Roberto, a preservação é necessária até a conclusão do trabalho de perícia. "Quando não há luz ou tempo suficientes, ou mesmo falta equipamentos necessários, é preciso deixar para outro dia".

Procedimento
O delegado Roberto Andrade considera "de suma importância a preservação da cena do crime, pois dela podemos descobrir a autoria". Segundo ele, o ideal é que o policial, ao chegar ao local da ocorrência, primeiro verificar se a vítima está mesmo morta. "Se ainda tiver sinais vitais, ele deve parar tudo e chamar a ambulância". Em seguida, voltar para a viatura, observando todo o local, à procura de vestígios. "E então isolar uma área num perímetro maior possível, chamando em seguida a perícia".

Para Roberto Andrade, esses passos são cruciais às investigações. "Se isso não é feito, teremos muitas dificuldades para apurar o crime. Então, tudo o que poderemos fazer é contabilizar os prejuízos". Por causa disso, o delegado revela que a Dehom tem trabalhado para treinar vários policiais para que a preservação da cena de crime seja feita de forma correta.

Fonte: Diário de Natal - Edição de domingo, 12 de setembro de 2010 - Paulo de Sousa // jpaulosousa.rn@dabr.com.br

2 comentários:

  1. Muito importante sua postagem Paulo! A nossa polícia ainda está muito despreparada nesse sentido, e os locais de crime são diuturnamente violados ou inadequadamente isolados. Já presenciei várias situações absurdas. Esse é o resultado dos precários cursos de formação dos policiais e da ausência de bons gestores e comandantes, que administrem e acompanhem essas ações. Parabéns pela postagem! Um abraço.

    ResponderExcluir
  2. Obrigado, Roberta.Tenho a esperança que um dia os nossos gestores tenham o compromisso com a sociedade,a competência e a capacidade intelectual que profissionais como você tem.Grande abraço!

    ResponderExcluir

Fiquem à vontade para opinar, criticar, sugerir...